sábado, 9 de agosto de 2014

Melancolia

A vida amanheceu melancólica. Pela janela, um sopro teimoso impõe-te na cara a brisa matinal de um verão tímido e sonolento, como tu. Que dia é hoje? Sei lá! É mais uma manhã qualquer desta peregrinação de sentido improvisado. Lá fora, ouve-se o bulício inquieto do milheiral. As canas agitam-se, numa dança involuntária, ao capricho do vento. Do outro lado, pressente-se o azul altivo do mar. Severo e emproado, invade-me o olhar com uma vida que se me escapa. A manhã nasceu melancólica em mim. Ouço mas não entendo as vozes dos que me falam. Vejo-os mas estranho-os na sua comparência acidental na minha vida. Pressinto em cada ausência e cada silêncio breve a liberdade que me devolverá a mim. Esta paz fugidia e efémera, tantas vezes a minha única linguagem, é a minha essência e o meu martírio.

Cansaço

Estou cansado, é claro, Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. De que estou cansado, não sei: De nada me serviria sabê-lo, Pois o cansaço fica na mesma. A ferida dói como dói E não em função da causa que a produziu. Sim, estou cansado, E um pouco sorridente De o cansaço ser só isto — Uma vontade de sono no corpo, Um desejo de não pensar na alma, E por cima de tudo uma transparência lúcida Do entendimento retrospectivo... E a luxúria única de não ter já esperanças? Sou inteligente: eis tudo. Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá, Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa. álvaro de campos

quarta-feira, 5 de março de 2014

Regresso ao labirinto

“The most spiritual men, as the strongest, find their happiness where others would find their destruction: in the labyrinth, in hardness against themselves and others, in experiments. Their joy is self-conquest: asceticism becomes in them nature, need, and instinct. Difficult tasks are a privilege to them; to play with burdens that crush others, a recreation. Knowledge-a form of asceticism. They are the most venerable kind of man: that does not preclude their being the most cheerful and the kindliest. ” ― Friedrich Nietzsche .