terça-feira, 28 de março de 2017
sábado, 9 de agosto de 2014
• You might as well expect the rivers to run backward as that any man who was born free should be contented to be penned up and denied liberty to go where he pleases. We were taught to believe that the Great Spirit sees and hears everything, and that he never forgets, that hereafter he will give every man a spirit home according to his deserts; If he has been a good man, he will have a good home; if he has been a bad man, he will have a bad home. This I believe, and all my people believe the same.
I am tired of talk that comes to nothing It makes my heart sick when I remember all the good words and all the broken promises. There has been too much talking by men who had no right to talk.
It does not require many words to speak the truth.
If the white man wants to live in peace with the Indian, he can live in peace. Treat all men alike.Give them all the same law.Give them all an even chance to live and grow.All men were made by the same Great Spirit Chief. They are all brothers. The Earth is the mother of all people, and all people should have equal rights upon it. Let me be a free man,free to travel, free to stop,free to work,free to trade where I choose my own teachers, free to follow the religion of my fathers,free to think and talk and act for myself, and I will obey every law, or submit to the penalty."
~ Chief Joseph, Nez Perce
Native American Indian Wisdom
www.facebook.com/NativeIndianWisdom
Melancolia
A vida amanheceu melancólica. Pela janela, um sopro teimoso impõe-te na cara a brisa matinal de um verão tímido e sonolento, como tu.
Que dia é hoje? Sei lá! É mais uma manhã qualquer desta peregrinação de sentido improvisado. Lá fora, ouve-se o bulício inquieto do milheiral. As canas agitam-se, numa dança involuntária, ao capricho do vento. Do outro lado, pressente-se o azul altivo do mar. Severo e emproado, invade-me o olhar com uma vida que se me escapa.
A manhã nasceu melancólica em mim. Ouço mas não entendo as vozes dos que me falam. Vejo-os mas estranho-os na sua comparência acidental na minha vida. Pressinto em cada ausência e cada silêncio breve a liberdade que me devolverá a mim. Esta paz fugidia e efémera, tantas vezes a minha única linguagem, é a minha essência e o meu martírio.
Cansaço
Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
álvaro de campos
quarta-feira, 5 de março de 2014
Regresso ao labirinto
“The most spiritual men, as the strongest, find their happiness where others would find their destruction: in the labyrinth, in hardness against themselves and others, in experiments. Their joy is self-conquest: asceticism becomes in them nature, need, and instinct. Difficult tasks are a privilege to them; to play with burdens that crush others, a recreation. Knowledge-a form of asceticism. They are the most venerable kind of man: that does not preclude their being the most cheerful and the kindliest. ”
― Friedrich Nietzsche
.
sábado, 22 de janeiro de 2011
A memória
A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto - eis a invenção.
Ana Hatherly, in 'A Cidade das Palavras'
Ana Hatherly, in 'A Cidade das Palavras'
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva
Ilumina-se a Igreja por Dentro da Chuva
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa ...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa ...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
domingo, 9 de janeiro de 2011
Descoberta
Ontem, numa visita ao Clube literário do Porto, descobri num folheto perdido uns poemas de uma autora de quem nunca tinha ouvido falar mas cujos poemas me agradaram. A autora,Judith Teixeira, nasceu em Viseu em 1880 e apesar de ter deixado algumas obras publicadas, parece ter ficado até hoje na obscuridade. Aqui fica um dos seus poemas e duas ligações com mais informação.
http://wwweuropa.blogspot.com/
http://www.arlindo-correia.com/judith_teixeira_1.html
Onde vou?
Onde vou eu, onde vou?
Já nem sei donde parti…
Se eu mesma não sei quem sou!
Achei-me dentro de ti.
Eu fui ninguém que passou,
eu não fui, nunca me vi…
Fui asa que palpitou –
Eu só agora existi.
Negra dor espavorida
ou saudade dolorida
eu fui talvez no passado…
Sou triste por atavismo…
Não há ontem no cuidado
em que em cuidados me abismo.
Inverno – Hora Ignorada
1922
http://wwweuropa.blogspot.com/
http://www.arlindo-correia.com/judith_teixeira_1.html
Onde vou?
Onde vou eu, onde vou?
Já nem sei donde parti…
Se eu mesma não sei quem sou!
Achei-me dentro de ti.
Eu fui ninguém que passou,
eu não fui, nunca me vi…
Fui asa que palpitou –
Eu só agora existi.
Negra dor espavorida
ou saudade dolorida
eu fui talvez no passado…
Sou triste por atavismo…
Não há ontem no cuidado
em que em cuidados me abismo.
Inverno – Hora Ignorada
1922
Regresso?
Meses e meses sem escrever uma única palavra, sem publicar uma única fotografia, sem qualquer registo de sentidos ou de memórias.
Talvez fosse por cansaço ou ainda por falta de coisas que merecessem lugar no labirinto. Talvez fosse porque me perdi, mas isso agora significaria que me tivesse encontrado. A verdade é que aqui estou de volta ao fim de um ano de silêncios, perdas, lágrimas e recomeços.
Sinto falta de alguma coisa que não sei bem o que é e muito menos sei se é aqui, neste recanto da escrita que vou descobrir. Só sei que me agoniza a rotina do trabalho, o sufoco do quotidiano, a pequenez dos outros que se faz minha também,só sei que preciso de fazer alguma outra coisa que seja só minha e que o faça pelo prazer de o fazer, sem obrigações.
Foi na doçura com que me ouves e me lês que encontrei vontade de regressar. Para ti, meu ouvinte ideal, leitor ímpar, amante nos versos e nas curvas do corpo, foi para ti também que regressei.
Talvez fosse por cansaço ou ainda por falta de coisas que merecessem lugar no labirinto. Talvez fosse porque me perdi, mas isso agora significaria que me tivesse encontrado. A verdade é que aqui estou de volta ao fim de um ano de silêncios, perdas, lágrimas e recomeços.
Sinto falta de alguma coisa que não sei bem o que é e muito menos sei se é aqui, neste recanto da escrita que vou descobrir. Só sei que me agoniza a rotina do trabalho, o sufoco do quotidiano, a pequenez dos outros que se faz minha também,só sei que preciso de fazer alguma outra coisa que seja só minha e que o faça pelo prazer de o fazer, sem obrigações.
Foi na doçura com que me ouves e me lês que encontrei vontade de regressar. Para ti, meu ouvinte ideal, leitor ímpar, amante nos versos e nas curvas do corpo, foi para ti também que regressei.
domingo, 28 de março de 2010
Marina:mezzo Soprano
Nada fazia crer que aquela aluna tímida de olhos esbugalhados, que agora começava a aprender Inglês, encantava desta maneira.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
nas asas de fénix...
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
“ Ver muito e ler muito aviva o engenho do homem."
Cervantes
No passado Domingo, visitei a casa onde nasceu o escritor espanhol Miguel Cervantes Saavedra . A casa-museu com o seu nome foi construída no lugar onde se julga ter estado a casa original, ainda que dessa estrutura resistam apenas um mural e um poço. O mobiliário e a decoração da casa reconstituem o que seria uma casa de uma família abastada da época, mas sem qualquer relação com a família do escritor.
Numa das salas, encontram-se edições antigas e valiosas de D. Quixote de la Mancha traduzidas nas mais variadas e estranhas línguas. Surpreenderam-me as de Esperanto e numeração criptográfica. Confesso que a casa ficou um pouco aquém das minhas expectativas, esperava que a casa museu do escritor espanhol por excelência tivesse mais para oferecer. Mais informação sobre o próprio e sobre a época, sobre o tempo que passou em Alcalá de Henares e, claro, sobre a sua obra.
A cidade, por outro lado, impressionou-me bastante. Tem a Universidade mais antiga de Espanha, e eu que esperava que fosse Salamanca ou Santiago, e os edifícios cor de argila antigos espalham-se pela parte antiga da cidade dando-lhe um charme académico, quase místico. Naquelas ruas estreitas, percorridas por ciprestes, escondem-se séculos de histórias e páginas de História. Alcalá é a cidade das três culturas e isso sente-se, lê-se e vê-se nas ruas. Em Alcalá encontraram-se o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo e há pela cidade presença de povos, crenças e estilos arquitectónicos distintos.
Mas não é sobre Alcalá que me apetece escrever. É sobre Cervantes. Ou melhor, sobre a leitura. Se é verdade o que diz, que é na leitura e na observação que o Homem desenvolve a sua inteligência e talento, então o que dizer dos madrilenos que lêem em todo o lado? Mas o que lêem afinal os madrilenos? Numa cidade do tamanho de Madrid, é inevitável passar-se uma boa parte do dia no autocarro, no comboio ou no metro. A mim toca-me o metro. Num dia só passeio pela linha laranja, azul e castanha várias vezes em diferentes horas e sentidos. Não o faço com gosto mas o que gosto mesmo é de observar o que fazem os madrilenos enquanto se deslocam de subterrâneo: lêem.
Há um ano que observo e atrevo-me a dizer que os madrilenos só podem ser extremamente engenhosos. No metro lê-se em pé, sentado, entre compras, apertado por outros passageiros e até sentado no chão da carruagem. E o que se lê? Lêem-se os jornais breves que se lêem em vinte minutos e que se deixam no assento para o próximo passageiro. Em vinte minutos ou menos fica-se a saber o que vai no mundo e em Madrid. As revistas cor-de-rosa também abundam nas mãos de muitas passageiras. É que em Espanha, interessa muito a vida dos famosos. A indústria do rumor ‘pink’ é gigante, assustadora e agressiva. Consomem-se escândalos, infidilidades, amores, viagens e sonhos de famosos de forma voraz. E não só em revistas, a televisão também o explora mas disso falarei noutra altura. Lê-se quase sempre em castelhano, autores nacionais e estrangeiros, e quando um título está em inglês, francês ou alemão o leitor também parece estrangeiro. Quase todos os dias descubro um manual diferente. É que no metro também se estuda e agora abundam os manuais para a ‘oposiciones’, um exame a que qualquer candidato a uma posição pública tem que se submeter. Também há os leitores tímidos ou reservados que escondem o que lêem sob uma encadernação rápida com a folha de um jornal. Às vezes lê-se a Bíblia, outras o Corão. No outro dia cruzei-me com o nome da Virginia Woolf e sorri discretamente. Foi a primeira vez que vi alguém ler a ‘minha’ autora no metro.
Às vezes, os leitores mais entusiasmados sobem as escadas rolantes que os levam à superfície de livro aberto afastando o olhar apenas para confirmar a ausência de obstáculos. A verdade é que com o tempo que a cidade nos rouba, a única maneira de o recuperar é aproveitar as deslocações para mergulhar noutras histórias que não as reais de uma cidade que nos devora. Naturalmente, nem tudo o que se lê no metro poderia fazer parte de uma ‘lista de autores a não perder’. No entanto, parece -me mais preocupante não ler de todo, do que fazer escolhas pelo ‘top’ Casa del Libro.
E eu, o que leio agora no metro quando não estou a ver o que lêem os outros? Um livro de Camilo José Cela comprado num alfabarrista em Alcalá: Café de artistas y otros papeles volanderos. É a minha primeira incursão literária em castelhano. E que me avive o engenho!
Cervantes
No passado Domingo, visitei a casa onde nasceu o escritor espanhol Miguel Cervantes Saavedra . A casa-museu com o seu nome foi construída no lugar onde se julga ter estado a casa original, ainda que dessa estrutura resistam apenas um mural e um poço. O mobiliário e a decoração da casa reconstituem o que seria uma casa de uma família abastada da época, mas sem qualquer relação com a família do escritor.
Numa das salas, encontram-se edições antigas e valiosas de D. Quixote de la Mancha traduzidas nas mais variadas e estranhas línguas. Surpreenderam-me as de Esperanto e numeração criptográfica. Confesso que a casa ficou um pouco aquém das minhas expectativas, esperava que a casa museu do escritor espanhol por excelência tivesse mais para oferecer. Mais informação sobre o próprio e sobre a época, sobre o tempo que passou em Alcalá de Henares e, claro, sobre a sua obra.
A cidade, por outro lado, impressionou-me bastante. Tem a Universidade mais antiga de Espanha, e eu que esperava que fosse Salamanca ou Santiago, e os edifícios cor de argila antigos espalham-se pela parte antiga da cidade dando-lhe um charme académico, quase místico. Naquelas ruas estreitas, percorridas por ciprestes, escondem-se séculos de histórias e páginas de História. Alcalá é a cidade das três culturas e isso sente-se, lê-se e vê-se nas ruas. Em Alcalá encontraram-se o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo e há pela cidade presença de povos, crenças e estilos arquitectónicos distintos.
Mas não é sobre Alcalá que me apetece escrever. É sobre Cervantes. Ou melhor, sobre a leitura. Se é verdade o que diz, que é na leitura e na observação que o Homem desenvolve a sua inteligência e talento, então o que dizer dos madrilenos que lêem em todo o lado? Mas o que lêem afinal os madrilenos? Numa cidade do tamanho de Madrid, é inevitável passar-se uma boa parte do dia no autocarro, no comboio ou no metro. A mim toca-me o metro. Num dia só passeio pela linha laranja, azul e castanha várias vezes em diferentes horas e sentidos. Não o faço com gosto mas o que gosto mesmo é de observar o que fazem os madrilenos enquanto se deslocam de subterrâneo: lêem.
Há um ano que observo e atrevo-me a dizer que os madrilenos só podem ser extremamente engenhosos. No metro lê-se em pé, sentado, entre compras, apertado por outros passageiros e até sentado no chão da carruagem. E o que se lê? Lêem-se os jornais breves que se lêem em vinte minutos e que se deixam no assento para o próximo passageiro. Em vinte minutos ou menos fica-se a saber o que vai no mundo e em Madrid. As revistas cor-de-rosa também abundam nas mãos de muitas passageiras. É que em Espanha, interessa muito a vida dos famosos. A indústria do rumor ‘pink’ é gigante, assustadora e agressiva. Consomem-se escândalos, infidilidades, amores, viagens e sonhos de famosos de forma voraz. E não só em revistas, a televisão também o explora mas disso falarei noutra altura. Lê-se quase sempre em castelhano, autores nacionais e estrangeiros, e quando um título está em inglês, francês ou alemão o leitor também parece estrangeiro. Quase todos os dias descubro um manual diferente. É que no metro também se estuda e agora abundam os manuais para a ‘oposiciones’, um exame a que qualquer candidato a uma posição pública tem que se submeter. Também há os leitores tímidos ou reservados que escondem o que lêem sob uma encadernação rápida com a folha de um jornal. Às vezes lê-se a Bíblia, outras o Corão. No outro dia cruzei-me com o nome da Virginia Woolf e sorri discretamente. Foi a primeira vez que vi alguém ler a ‘minha’ autora no metro.
Às vezes, os leitores mais entusiasmados sobem as escadas rolantes que os levam à superfície de livro aberto afastando o olhar apenas para confirmar a ausência de obstáculos. A verdade é que com o tempo que a cidade nos rouba, a única maneira de o recuperar é aproveitar as deslocações para mergulhar noutras histórias que não as reais de uma cidade que nos devora. Naturalmente, nem tudo o que se lê no metro poderia fazer parte de uma ‘lista de autores a não perder’. No entanto, parece -me mais preocupante não ler de todo, do que fazer escolhas pelo ‘top’ Casa del Libro.
E eu, o que leio agora no metro quando não estou a ver o que lêem os outros? Um livro de Camilo José Cela comprado num alfabarrista em Alcalá: Café de artistas y otros papeles volanderos. É a minha primeira incursão literária em castelhano. E que me avive o engenho!
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
domingo, 6 de dezembro de 2009
Recado para a Lassuta
À minha querida Isabel:
(minha amiga, minha inspiração, meu mestre)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
(quero ver-te sorrir como uma menina inocente, quero voltar a ver a Arte pelos teus olhos)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
(Tenho dois copos de vinho sobre a mesa,quero bebê-lo contigo, quero brindar a vida contigo)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
(minha amiga, minha inspiração, meu mestre)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
(quero ver-te sorrir como uma menina inocente, quero voltar a ver a Arte pelos teus olhos)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
(Tenho dois copos de vinho sobre a mesa,quero bebê-lo contigo, quero brindar a vida contigo)
Aguardo-te para um passeio junto ao rio.
letting go...
"To change skins, evolve into new cycles, I feel one has to learn to discard. If one changes internally, one should not continue to live with the same objects. They reflect one's mind and the psyche of yesterday."Anais Nin
Às vezes muda-se-nos a pele. Começa um novo ciclo, deixa-se um pensamento, muda-se um sentimento ou troca-se a frequência da alma. Este é, quase sempre, um processo doloroso, uma vez que envolve rupturas com coisas e pessoas de quem gostamos e nos obriga a enfrentar o desconhecido. Umas vezes deixamos lugares, outras vezes pessoas, outras vezes temos mesmo que abdicar de coisas mais profundas, parte de tecido interno que já não somos nós. Seja o que for, é necessário soltar, deixar partir, saber aceitar fazendo as pazes connosco e com os outros. Há que desligar do passado e deixar que o presente nos inunde até que outra pele nos cubra.
Stuck?
Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que vivê-la no imediato, na execução absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser só abertura para amanhã. A vida real não eram as leis dos outros e a sua sanção e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solitária. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio só podia revelar-se e executar-se na união total com nós mesmos, com as forças derradeiras que nos trazem de pé e são nós e exigem realizar-se até ao esgotamento. Este «eu» solitário que achamos nos instantes de solidão final, se ninguém o pode conhecer, como pode alguém julgá-lo? E de que serve esse «eu» e a sua descoberta, se o condenamos à prisão? Sabê-lo é afirmá-lo! Reconhecê-lo é dar-lhe razão. Que ignore isso o que ignora que é. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a dádiva da evidência de si, como condenar-se a si ao silêncio prisional? Ninguém pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos. Que ao menos nós lhe demos, a isso que somos, a oportunidade de o sermos até ao fim. Gritar aos astros até enrouquecermos. Iluminarmos a brasa que vive em nós até nos consumirmos. Respondermos com a absoluta liberdade ao desafio do fantástico que nos habita. Somos cães, ratos, escaravelhos com consciência? Que essa consciência esgote até às fezes a nossa condição de escaravelhos.
Virgílio Ferreira, "Aparição"
Subscrever:
Mensagens (Atom)

